Não tenho por hábito dizer mais do que duas ou três palavras sobre política/economia/caos social mas combinaram-se duas ou três notícias e torna-se de certa forma inevitável.
Começamos:
"Os juros dos títulos de dívida dos países periféricos da Zona Euro deram um lucro de 1100 milhões de euros ao Banco Central Europeu (BCE), de acordo com os dados do banco divulgados na quinta-feira. Este lucro parte de uma carteira de 208 mil milhões de euros em dívida portuguesa, espanhola, grega, italiana e irlandesa, que começou a ser comprada em meados de 2010 pelo BCE. (...) Os lucros são agora distribuídos pelos bancos centrais da zona euro em proporção com o capital investido por cada banco no BCE. Esta regra levará a Alemanha a receber a maior fatia dos dividendos."
Em abril de 2011 juntámo-nos a um triste grupo de países que por não se saberem governar abdicam da sua soberania. Por questões meramente de "insustentabilidade", que nem uma simples empresa, declaramos que não conseguimos cumprir para com as nossas obrigações perante os nossos credores e que precisamos por isso de ajuda financeira. O BCE, CE e FMI, de forma bem travada, e sublinhe-se, permanentemente de pé atrás, motivado sim, pelos receios eleitorais da Sra Merkel, lá nos concede um primeiro pacote o qual aceitamos, forçada e avidamente sem pouco ou quase nada questionar as suas condições. Um tal de memorando de entendimento (de subversão ao capital) é assinado pelo partido no poder e pelos partidos na oposição. A democracia é por "entendimento" logo aí arredada, em nome de uma sobrevivência económica.
Ora entre-se agora no dilema da Sra Merkel, como é que eu explico internamente que o dinheiro dos nossos impostos será usado para gerar mais dinheiro, sem perder o estado de graça de generosa nação mas sem que internamente me julguem por dar mais importância à politica externa (sim, porque existe politica externa dentro desta merda de união que de união não tem um crlh*) do que a questões do foro interno? Ora, o que tem sido feito é a resposta a esta pergunta.
Nunca tive por hábito direccionar desta forma as críticas à Merkel ou a quem quer que fosse. Mas o apresentar destes lucros representa o fechar de um ciclo do que vocês chamariam de óbvio. Sim bem sei, já os esperávamos. Mas agora alguém que o diga, sublinhe, e acenda o rastilho. A alemanha financiou-se durante o ano de 2012 com juros que chegaram a atingir os 0% - tendo obviamente o significado que tem-, o seu banco central lucra mais com a nossa dívida do que qualquer outro banco e no entanto, ainda tiveram o desplante de bater o pé a ajuda à Grécia ou a outro país. A Alemanha não é a vergonha , a vergonha é a presença de interesses económicos independentes dentro da união. Se é possível ter-se uma presença diferente dentro desta mesma união, vejamos o caso da França, primeiro com Sarkozy e agora com Hollande e pensemos, seria possível a Alemanha ter-se comportado de forma diferente. Porque teme esta de tal forma a federalização? Que faz então dentro da união? As respostas são óbvias, são egoístas, valem a merda que valem e sim, surpresa, mais economia para a carola.
10 meses depois, resultados práticos de toda esta subserviência de sermos agora o filho - filho o caralho - mais bem comportado, desemprego quase a bater os 18% - falha nas previsoes de cerca de 1 ponto qualquer coisa significando 50mil pessoas (familias) na idade activa sem trabalho - , a nossa dívida continua claro a aumentar - aparentemente, é assim que funciona um estado, contrai divida para pagar divida -, crédito mal parado, a empresas e particulares, a aumentar para o nível mais alto dos ultimos 15 anos, reformas são miseráveis - ideias indexantes dos valores destas ao pib completamente ignoradas - e segurança social a dar literalmente raia. O desemprego nos jovens aumenta todos os dias, os salários são parcos, e os sonhos são forçadamente limitados.
E tudo isto internamente, num cenário externo de recessão ou de contracção económica ou pior, crescimento negativo. Vai originar claro uma contração nas já contraídas exportações (contraídas entenda-se em número de empresas exportadoras).
Ouvir falar em crescimento negativo é unicamente revoltante. E tal como estas políticas a nivel externo e interno, este texto não tem qualquer pingo de responsabilidade social. Fala da mesma forma que se governa, de cima para baixo, no parlamento não se defendem já interesses a não ser os politicos e os meramente associados ao poder. Atiram diariamente, não é exagero, areia aos olhos do menos informado, do mais alheio, do mais cansado, triste e desiludido. Conformado. Reformado ou na idade activa.
A democracia desviou-se à muito do seu estado ideal. Não morreu, mas está muito mal tratada. Hoje, não seria capaz de votar em ninguém. Atinjo o estado dramático de sentir que o meu voto teria mais peso se pudesse ser colocado numa qualquer urna em Berlim.
Vocês, filhos da puta, mataram-me o país, tu, Oliveira e Costa, Cavaco e filha, Jardim, Sócrates, Rendeiro e que a lista continue até que vos apanhe a todos. Vocês são os culpados de algo bem mais grave que um desfalque ou um desvio, vocês são os verdadeiros culpados da maior perda que este país viveu. A perda da independência.
Mas cuidado, com ela, foi também a inocência.